Onde ficou o encontro? Quando o convívio vira notificação
Claudia Pellegrino
Como toda manhã, acordo mais cedo e dou aquela passada nas notícias - mas hoje foi diferente: abri meu bloco de notas e encontrei uma reflexão de 2015 sobre como a tecnologia começou a mexer na nossa gestualidade sem pedir licença. Depois de um tempo, abro o e- mail e vejo que, em 18.11.25, o Google lança o Gemini 3 e coloca agentes autônomos no bolso de todo mundo, enquanto o Gemini Agent passa a orquestrar e-mails, agendas e compromissos.

Na mesma batida, a Microsoft libera para testadores o novo Windows 11 e entra de vez na era dos 'agentes autônomos'. De qualquer forma, o que escrevi há 10 anos faz sentido - e queria compartilhar isso com você.
.Faz tempo que observo e me preocupo com a gestualidade e o convívio humana. Trabalhei muitos anos atrás com crianças surdas e, com elas, aprendi a escutar o mundo com outros sentidos. Aprendi a ler as emoções observando a linha das sobrancelhas com uma senhora surda de 80 anos quando visitei a Gallaudet University, referência e exemplo no mundo nessa especialidade. Desde então, procuro escutar, fotografar e intuir as emoções dos movimentos e expressões.
Mas naquela época, em 1988, certamente não estaria digitando este texto no meu smartphone. Não estaria concentrada no microteclado, com a cabeça e o olhar voltados para baixo, esperando que alguma letra escapasse dos meus dedos. Certamente não estaria utilizando simultaneamente os dois polegares tão habilidosamente. E mais: não estaria tão absorta - e, ao mesmo tempo, confusa - recebendo simultaneamente WhatsApp, mensagens que não param e pessoas me perguntando algo, enquanto eu respondo sem tirar um minuto a atenção desse teclado.
De que forma eu escreveria este mesmo texto em 1988? Provavelmente estaria sentada em um local tranquilo, com uma agenda que sempre me acompanha, e com uma lapiseira macia; minha mão inteira desenharia a escrita.
Mas aonde quero chegar com essa história? Estamos todos hipnotizados por essa tecnologia comunicativa ambígua. Estamos mudando (já mudamos) radicalmente nossos sentidos, nossos hábitos e, principalmente, a gestualidade humana.
Estamos nos deixando levar pela 'praticidade' tecnológica em detrimento das conexões com nossos sentidos mais antigos, que vêm do olhar. Nesse cenário, como nossas crianças perceberão o mundo?
Nossos gestos se alteraram radicalmente e nos desleixamos. Nosso olhar raramente contempla o olhar do outro, porque está perplexo diante de alguma tela digital. Não conseguimos estar presentes frente a outro humano, pois estamos eletronicamente em outro lugar, conversando, nos distraindo, sem conexão com nossos próprios pés.
Sem sentido algum, sem leitura alguma, estamos criando um cenário mundial cada vez mais estressado, menos sensível e mais conectado - e me pergunto a quê.
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