Quando o cuidado entra no projeto: o que o protagonismo feminino revela sobre o futuro dos bairros planejados

Quando o cuidado entra no projeto: o que o protagonismo feminino revela sobre o futuro dos bairros planejados

Série - Mulheres que Transformam o Mercado Imobiliário

Claudia Pellegrino

Recentemente tive a oportunidade de conversar com Luciana Pereira, do Grupo Petrasalis, uma das poucas mulheres empreendedoras que ocupam posições de liderança no mercado de loteamentos brasileiro. O tema inicial da entrevista era a implantação do Flores de Sal, bairro planejado em desenvolvimento em Tijucas, Santa Catarina. No entanto, à medida que a conversa avançava, percebi que não estávamos falando apenas sobre um empreendimento.

Estávamos falando sobre uma mudança de mentalidade que começa a ganhar espaço no setor imobiliário. Durante décadas, os bairros planejados foram concebidos prioritariamente a partir de critérios técnicos e econômicos. Infraestrutura, viabilidade, produto, comercialização e entrega. Tudo isso continua sendo fundamental. No entanto, existe uma pergunta que vem se tornando cada vez mais relevante e que venho reforçando a cada artigo que publico para empreendedores, investidores e futuros moradores: O que acontece quando o lote vendido se transforma em território habitado?

O que acontece quando a promessa comercial precisa se converter em experiência cotidiana? O que acontece quando a comunidade começa a existir?

Ao longo dos meus mais de 28 anos trabalhando com formação de comunidades, governança e pertencimento, aprendi que é justamente nesse momento que o verdadeiro desafio começa. E talvez seja também nesse ponto que o mercado imobiliário esteja vivendo uma de suas transformações mais importantes.

Durante nossa conversa, Luciana relatou que o Flores de Sal nasceu de uma inquietação. A intenção não era apenas desenvolver mais um loteamento. Havia o desejo de criar um lugar capaz de acolher pessoas, estimular encontros e favorecer a construção de vínculos. Pode parecer uma diferença sutil, mas ela altera profundamente a forma de conceber um empreendimento.

Quando o objetivo deixa de ser apenas parcelar a terra e passa a ser criar condições para a vida comunitária florescer, a lógica do projeto muda. A praça deixa de ser apenas um item do memorial descritivo. O parque deixa de ser apenas um equipamento urbano. A associação deixa de ser uma estrutura burocrática criada para administrar despesas. Tudo passa a fazer parte de uma visão mais ampla sobre como as pessoas irão viver, conviver e construir pertencimento naquele território.

Foi justamente essa percepção que me chamou atenção ao longo da entrevista. Antes mesmo da entrega da primeira fase do bairro, o Flores de Sal já promovia eventos, atividades esportivas, encontros e experiências coletivas. A central de vendas passou a funcionar também como um espaço de acolhimento. A feira local transformou-se em um instrumento de fortalecimento da economia criativa e das relações comunitárias. Os espaços públicos começaram a ser ocupados antes mesmo da conclusão das obras.

Em determinado momento da entrevista, Luciana compartilhou uma cena que permaneceu comigo depois da nossa conversa. Em um domingo à tarde, ao percorrer o parque do Flores de Sal, encontrou famílias fazendo piqueniques, crianças brincando, pessoas caminhando e grupos ocupando espontaneamente os espaços públicos. O bairro ainda não havia sido entregue. Mas a vida já havia chegado. Talvez aquele momento traduzisse melhor do que qualquer indicador o sucesso do projeto. O que estava sendo construído não era apenas um loteamento. Era uma experiência coletiva de pertencimento.

Em muitos empreendimentos, a comunidade é tratada como consequência da ocupação. No Flores de Sal, ela passou a ser compreendida como parte do processo de implantação. Essa diferença é enorme.

Ao observar esse movimento, lembrei-me de algo que venho defendendo há anos por meio da metodologia Design de Convívio: comunidade não se improvisa. Ela não nasce automaticamente porque as pessoas compraram terrenos próximas umas das outras. Ela precisa ser cultivada. Pertencimento não é um evento. É um processo. Governança não é um documento. É uma construção cultural. A convivência é, portanto, uma aprendizagem coletiva.

Historicamente, o mercado imobiliário foi treinado para olhar indicadores como VGV, velocidade de vendas, liquidez e retorno financeiro. Esses indicadores continuam sendo essenciais. Mas o que percebi na fala de Luciana foi a presença constante de outras perguntas: como as pessoas irão utilizar esse espaço? Como irão construir relações? Como estimular a convivência e o pertencimento?

Talvez seja justamente aí que o protagonismo feminino tenha muito a contribuir com o futuro do setor. Um dos exemplos mais interessantes relatados por Luciana foi a criação da feira local. O que começou com poucos expositores rapidamente se transformou em um ponto de encontro, fortalecendo pequenos empreendedores, gerando circulação de pessoas e criando uma nova centralidade para a região. Muitas vezes associamos pertencimento a grandes investimentos. Mas ele frequentemente nasce em experiências simples: um café compartilhado, uma conversa casual, um encontro recorrente entre vizinhos.

Como sempre digo, comunidade se constrói na repetição desses pequenos rituais coletivos.

Ao longo dos últimos anos, tenho observado cada vez mais mulheres ocupando posições de liderança em loteadoras, incorporadoras, áreas de marketing, relacionamento com clientes, sustentabilidade e governança. Frequentemente elas trazem para a mesa temas que durante muito tempo foram tratados como secundários:

experiência do morador, cultura comunitária, comunicação, pertencimento e qualidade das relações.

Curiosamente, são exatamente esses temas que hoje começam a impactar diretamente o valor dos empreendimentos.

Barracas padronizadas, mobiliário escolhido com cuidado, identidade visual coerente e atenção aos detalhes.

Para saber mais:

a Feirinha do Flores de Sal é um evento de lazer e incentivo ao empreendedorismo local realizado no bairro planejado Flores de Sal, em Tijucas (SC).

O evento ocorre geralmente aos sábados e reúne gastronomia, artesanato, produtos coloniais e música ao vivo

Local: Parque das Flores, no loteamento Flores de Sal, SC-410, km 8, nº 3840 (Nova Descoberta), Tijucas - SC.

Instagram: https://www.instagram.com/floresdesaloficial/ 

Por isso, talvez o maior aprendizado dessa conversa tenha sido perceber que o futuro dos bairros planejados não depende apenas de infraestrutura. Depende da capacidade de criar significado. Depende da capacidade de formar comunidades. Depende da coragem de compreender que a vida comunitária também faz parte do produto.

Ao encerrar a entrevista, fiquei refletindo sobre uma pergunta cada vez mais importante para o setor: o que realmente define o sucesso de um empreendimento? Será que as métricas utilizadas pelo mercado conseguem refletir o que acontece no território e na vida de uma comunidade? Ou ainda estamos deixando de considerar elementos fundamentais para sua sustentabilidade ao longo do tempo, como convivência, pertencimento, participação e capacidade de construção coletiva?

A trajetória de Luciana Pereira e a experiência do Flores de Sal mostram que uma transformação silenciosa já está em curso. Mostram que desenvolver um empreendimento não significa apenas entregar infraestrutura, mas também criar condições para que uma comunidade possa nascer, se fortalecer e prosperar. Revelam, ainda, a importância do protagonismo feminino na construção de uma visão mais integrada, sensível e sustentável para o desenvolvimento urbano brasileiro.

Porque cidades são feitas de ruas, praças e equipamentos. Mas comunidades são feitas de encontros, vínculos e cuidado compartilhado. E talvez seja justamente essa capacidade de cultivar relações que diferenciará os empreendimentos mais relevantes das próximas décadas.

Uma nova série se inicia

Mulheres que Transformam o Mercado Imobiliário é uma série de entrevistas e artigos que idealizei e produzo por meio do Bistrô de Inovação e do Design de Convívio, metodologia que desenvolvi e aplico há mais de 28 anos em empreendimentos e comunidades em diferentes regiões do Brasil.

Nesta série, busco dar visibilidade a mulheres que estão contribuindo para a evolução do setor imobiliário por meio da inovação, da governança, da sustentabilidade, da comunicação, da gestão e da construção de comunidades mais humanas, participativas e resilientes.

Mais do que contar trajetórias de sucesso, meu objetivo é abrir espaço para reflexões, aprendizados e experiências que possam inspirar novas formas de pensar e desenvolver os territórios onde vivemos.


 Claudia Pellegrino  Fundadora da empresa Bistrô de Inovação  Mensagem


Categoria: Artigo

Publicado em:

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