De onde nasce o meu olhar

Antes de trabalhar com comunidades, loteamentos, condomínios e bairros planejados, aprendi a olhar. Talvez esse tenha sido meu primeiro território de pesquisa: o rosto humano, os gestos que revelam o que as palavras nem sempre alcançam, a forma como uma pessoa se aproxima de outra e aquilo que acontece quando estamos verdadeiramente presentes.

Nasci em Santa Cruz do Rio Pardo, uma pequena cidade do interior de São Paulo. Cresci de pés no chão, brincando na calçada, em um tempo em que as notícias demoravam a chegar e a vida acontecia muito lenta e perto. A primeira vez que assisti à televisão foi diante de uma Telefunken de válvula, que precisava esquentar antes de sintonizar. A chegada daquele aparelho foi um acontecimento. Os vizinhos vieram para nossa casa, meus amigos ainda crianças se sentaram no chão e os adultos ocuparam o sofá. A imagem era em preto e branco. Do programa, pouco me lembro. Da cena, lembro-me inteira: todos os olhares fixos naquele objeto estranho colocado no centro da sala. Por alguns instantes, o tempo parecia ter parado.

Sim, sou desse tempo. E talvez por isso ainda me cause estranhamento entrar em um café e perceber tantas pessoas juntas, mas ausentes umas das outras. O olhar que antes convergia para uma única tela agora se dispersa em pequenas telas individuais. Cada pessoa parece estar em outro lugar, acompanhando mensagens, imagens e notícias que a levam para longe do espaço onde seus pés realmente estão.

Em poucas décadas, fechamos portas, erguemos muros, instalamos câmeras e passamos a procurar na moradia uma proteção cada vez maior contra aquilo que está fora. Ao mesmo tempo, carregamos conosco uma janela permanentemente aberta para um mundo digital que nos captura, nos informa, nos aproxima e também nos afasta. A tecnologia ampliou possibilidades extraordinárias de comunicação. Ainda assim, ela não substitui a presença, o encontro dos olhos, a escuta e a delicadeza de perceber quem está diante de nós.

Essa inquietação atravessa minha vida há muito tempo. Como fonoaudióloga de formação acadêmica, trabalhei com crianças surdas e, com elas, aprendi a escutar o mundo por outros sentidos. Em uma visita à Gallaudet University em Washington, D.C., conheci uma senhora surda de 80 anos que me ensinou a perceber emoções pela linha das sobrancelhas. Desde então, observo os movimentos, as expressões, as pausas e tudo aquilo que o corpo comunica antes mesmo que uma palavra seja pronunciada.

Em 2015, escrevi sobre a mudança da nossa gestualidade diante da tecnologia. Pensei nos dois polegares correndo sobre o pequeno teclado do celular, na cabeça inclinada, no olhar voltado para baixo e na atenção dividida entre pessoas, mensagens e inúmeras solicitações. Comparei essa cena com a maneira como eu escreveria anos antes, sentada em um lugar tranquilo, acompanhada por uma agenda e uma lapiseira macia, enquanto a mão inteira desenhava a escrita. Minha preocupação não era com o instrumento. Era com aquilo que poderíamos perder ao utilizá-lo sem consciência: a presença, o gesto, a contemplação e a capacidade de estar por inteiro com outro ser humano.

Talvez minha relação com o olhar tenha ganhado ainda mais força aos 15 anos, quando meu pai, também apaixonado por inovação e tecnologia, me presenteou com uma câmera fotográfica Canon analógica. Foi uma festa. Passei a olhar o mundo pela lente e logo descobri uma paixão especial pelo retrato. Fotografava crianças, amigos, idosos e pessoas que atravessavam a praça central da cidade. Eu procurava algo que não sabia explicar de maneira concreta, algo que parecia existir além dos traços e atrás do olhar: a alma. A praça da minha cidade, tornou-se meu primeiro estúdio e, sem que eu soubesse, também um espaço de investigação sobre a condição humana.

Minha trajetória pessoal e profissional nunca obedeceu a uma linha reta. Durante muito tempo, ela poderia parecer difusa. Hoje reconheço o fio que une cada experiência: a curiosidade diante do humano e meu inconformismo com tudo aquilo que enfraquece nossa capacidade de conviver.

A infância também me ensinou que o coletivo se aprende antes que saibamos dar esse nome a ele. Brincávamos em pé, correndo, inventando quase tudo a partir do pouco que tínhamos. Nas brincadeiras, aprendíamos a dividir espaços, negociar regras, lidar com frustrações, acolher diferenças e criar juntos. A arte não era apenas uma atividade escolar. Estava na imaginação, no corpo, nos jogos improvisados na calçada frente da casa e na liberdade de transformar o cotidiano. Era o tecido invisível que costurava nossas relações e formava nossa sensibilidade para o mundo.

Aos poucos, essa experiência colaborativa cedia lugar a outra lógica. A criança que aprendia brincando com outras crianças entrava em um caminho cada vez mais estreito de comparação, desempenho e competição. O corpo permanecia mais tempo sentado, a imaginação encontrava menos espaço e o outro passava, muitas vezes, a ser percebido como concorrente. Essa mudança sempre me inquietou. O que acontece com nossa capacidade de viver coletivamente quando somos preparados durante tantos anos para vencer sozinhos? Como essa formação reaparece, mais tarde, na maneira como habitamos bairros, condomínios e cidades?

Durante meu doutorado em Educação e Currículo, na PUC-SP, mergulhei no estudo das redes de aprendizagem. Ao abrir espaço para o lúdico e para a criação coletiva dentro das escolas, observei professores se aproximarem, cooperarem e produzirem novas práticas. O jogo Ecologia da Paz cocriado pelos participantes deixava de ser apenas um objeto e se tornava um ponto de ignição, capaz de mobilizar relações, aprendizagens e transformações que alcançavam a comunidade escolar.

Essa pesquisa confirmou algo que eu já intuía: o lúdico, a arte, a escuta e a criação compartilhada são dimensões estruturantes da formação humana. Eles ajudam a despertar valores que sustentam a vida coletiva. Foi então que uma pergunta ganhou ainda mais força em mim: como criar espaços onde nossa essência possa florescer sem perder de vista a existência do outro e o mundo que compartilhamos?

Antes mesmo de concluir essa elaboração, a vida já me conduzia para os territórios de moradia. A partir de 1998, fui uma das fundadoras e integrante da diretoria da Associação Cultural e Educacional Gira Sonhos, criada em Campinas por profissionais e pesquisadores de diferentes áreas. Ali está uma das raízes mais profundas da minha inquietação com o bem-estar e o convívio nos ambientes habitacionais.

Na Gira Sonhos, acreditávamos que 'o equilíbrio do indivíduo também depende do equilíbrio da comunidade'. Queríamos sensibilizar e integrar moradores, estimular a cultura da colaboração e despertar o pertencimento ao grupo e ao território. Chamávamos nossas ações de experimentos sociais porque cada comunidade nos ensinava alguma coisa. Chegávamos com conhecimento e método, mas também com disponibilidade para escutar, aprender e construir junto.

Foi nesse percurso que vivi uma das experiências mais importantes da minha trajetória: o bairro planejado Villa Flora Sumaré. A proposta imobiliária idealizada pela Rossi Residencial na época buscava resgatar valores de cidade pequena, preservar áreas verdes e criar condições para uma vida de maior proximidade. Entretanto, compreendíamos que o desenho físico, por melhor que fosse, não produziria sozinho integração, autonomia, cooperação e cuidado.

Entre 1999 e 2011, acompanhamos aquela comunidade desde seus primeiros movimentos. O processo foi cocriado com moradores e com a equipe da incorporadora. Aproximamos pessoas, identificamos talentos, formamos lideranças, apoiamos a criação e gestão da associação, construímos canais de participação e preparamos a passagem de bastão. Tudo isso aconteceu em um tempo de bip e orelhão, quando a presença física constante era a principal tecnologia de relacionamento de que dispúnhamos.

Em 2011, a Associação de Moradores assumiu integralmente a condução do trabalho comunitário. A passagem de bastão representou mais do que uma mudança administrativa. Era o sinal de que aquele território havia construído capacidade para seguir sua própria história. Até hoje, o Villa Flora chama atenção pelo cuidado, pela preservação de suas características e pelo valor que continua produzindo para quem vive e investe ali.

Muitas pessoas me perguntam por que essa experiência deu certo. Talvez a resposta esteja menos em uma ação isolada e mais na continuidade de um processo. Houve projeto urbano, presença, formação, participação, escuta, construção de acordos e tempo para que a comunidade reconhecesse sua própria potência. O território não recebeu apenas equipamentos e regras. As pessoas foram convidadas a compreender que também faziam parte daquilo que estava nascendo.

Em paralelo, minha passagem pelo ambiente corporativo ampliou ainda mais esse olhar. Em 2007, ao integrar a área de Pesquisa e Desenvolvimento da Natura, participei da construção da Ciência do Bem-Estar. O desafio de pesquisar e medir dimensões objetivas e subjetivas do bem-estar me ajudou a compreender com maior profundidade a relação entre o equilíbrio pessoal, o bem-estar social e as condições que favorecem uma vida com sentido. Foi também nesse percurso que conheci o pensamento de Ken Wilber, cuja visão integral trouxe novas perguntas e conexões para minha pesquisa.

Ao reunir essas experiências, desenvolvi o conceito de Educação para o Coletivo. Ele nasce da compreensão de que compartilhar um endereço não nos transforma automaticamente em comunidade. Viver coletivamente exige aprendizagem. Exige reconhecer a própria singularidade, criar vínculos com o lugar, conviver com diferenças e assumir responsabilidade pelo que pertence a todos.

Educar para o coletivo significa preparar pessoas, grupos e instituições para compreender a interdependência que sustenta a vida comum. Significa formar consciência, participação e capacidade de agir. Essa educação começa no Ser, alcança o Pertencer, amadurece no Conviver e se realiza no Cuidar. No centro desse movimento está o Nós, não como apagamento do indivíduo, mas como reconhecimento de que cada gesto pessoal participa da construção do mundo compartilhado onde esta o 'Todos Nós.

A Educação para o Coletivo é o fundamento formativo que embasa a metodologia Design de Convívio®. A metodologia transforma esse princípio em práticas de escuta, comunicação, formação de lideranças, participação, governança e cuidado aplicadas aos territórios. Uma oferece a visão de ser humano e de sociedade. A outra cria caminhos para que essa visão ganhe presença na vida real.

Ao longo de quase três décadas, vi empreendimentos nascerem, famílias chegarem, conflitos emergirem, lideranças se formarem e lugares aprenderem, ou deixarem de aprender, a cuidar de si. Aprendi que construir casas, ruas, praças e equipamentos é essencial, mas ainda insuficiente para formar uma comunidade. A obra pode terminar. A vida comum está apenas começando.

É desse lugar que escrevo este livro. Escrevo como educadora, pesquisadora e profissional que continua curiosa diante das pessoas e inconformada com a naturalização do isolamento, da indiferença e do abandono. Escrevo porque acredito que o mercado imobiliário pode inaugurar um novo patamar de inovação social, no qual formar territórios humanos seja tão importante quanto projetar sua infraestrutura.

Talvez o grande desafio do nosso tempo seja reaprender a olhar. Olhar para dentro, reconhecer quem somos e perceber o lugar onde nossos pés estão. Olhar para o outro como parte da experiência de habitar. Olhar para o território e compreender que sua história também passa por nossas escolhas. Afinal, o que acontece depois que as chaves são entregues? Quem prepara as pessoas para a vida que começa ali? E que comunidade poderá nascer quando cada um reconhecer, dentro de si, a força de todos nós?


 Claudia Pellegrino  Fundadora da empresa Bistrô de Inovação  Mensagem


Categoria: Artigo

Publicado em:

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